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quarta-feira, 13 de maio de 2026

Sine/Pi: Entre a realidade e a fantasia beira a loucura

 Desemprego alto e informalidade expõem contradições do mercado

Indicadores oficiais apontam melhora no mercado de trabalho, mas os números convivem com uma realidade dura: informalidade elevada, subutilização da força de trabalho em nível crítico e empregos de baixa qualidade como regra, não exceção.

Foto: Reprodução | Governo do PiauíSine - PI

A divulgação de 413 vagas pelo Sistema Nacional de Emprego no Piauí volta a expor uma contradição que já não é sutil. De um lado, relatórios oficiais falam em recuperação do emprego. De outro, o cotidiano econômico do estado segue sustentado por ocupações instáveis, baixa renda e forte dependência do setor informal.

Os dados mais recentes do IBGE mostram que o Piauí encerrou 2025 com taxa de desocupação anual de 9,3 por cento, a mais alta do país no período. Ao mesmo tempo, a subutilização da força de trabalho chegou a 31 por cento, também a pior marca nacional. Isso significa que quase um terço da população economicamente ativa está desempregada, trabalha menos do que poderia ou desistiu de procurar ocupação. Esses números não são marginais, são estruturais.

A informalidade reforça esse quadro. O estado mantém patamar acima de 50 por cento da população ocupada sem carteira assinada, chegando a cerca de 52,7 por cento em estimativas recentes do IBGE e de bases técnicas estaduais. Na prática, mais da metade dos trabalhadores depende de atividades sem proteção previdenciária, sem estabilidade e com renda instável. Isso desmonta qualquer leitura otimista simplificada sobre “avanço do emprego”.

Mesmo assim, o discurso oficial se apoia no Novo Caged para sustentar a ideia de expansão. O Piauí registrou cerca de 21 mil novos empregos formais em 2025. O problema é que esse saldo positivo não altera o eixo central da estrutura produtiva: a maior parte dessas vagas está concentrada em atividades de baixa remuneração, alta rotatividade e pouca exigência de qualificação. Cresce o número de admissões, mas não necessariamente a qualidade do trabalho.

É nesse ponto que a atuação do Sine revela sua limitação mais evidente. As vagas divulgadas seguem um padrão repetitivo: serviços gerais, comércio varejista, construção civil e funções operacionais. São ocupações necessárias ao funcionamento da economia, mas insuficientes para enfrentar um problema maior, que é a ausência de um ciclo consistente de empregos qualificados e bem remunerados.

O desencontro aparece quando se confronta o discurso de expansão com a realidade estatística completa. Se há criação de postos formais, ela convive com informalidade acima de 50 por cento e subutilização que atinge praticamente um terço da força de trabalho. Isso não é um detalhe técnico, é uma fratura estrutural do mercado de trabalho.

Outro ponto crítico está na forma como esses dados são comunicados. A leitura fragmentada do Caged, isolada da PNAD Contínua, cria uma narrativa parcial. O resultado é uma espécie de fotografia otimista de um recorte estreito, enquanto o panorama geral segue marcado por precarização. O emprego cresce em um segmento, mas não reorganiza o conjunto.

Também é preciso observar a ausência de integração entre políticas de emprego e setores estratégicos capazes de elevar o padrão ocupacional. Tecnologia, inovação e cadeias produtivas mais complexas seguem periféricas nesse processo. Sem essa conexão, o Sine acaba funcionando como um sistema de distribuição de vagas já existentes, e não como ferramenta de transformação do mercado de trabalho.

No fim, o que se tem é um descompasso persistente. Os números oficiais indicam movimento, mas não explicam sua qualidade. E é justamente aí que mora o problema: a distância entre estatística e realidade não é pequena, ela já se tornou parte da própria estrutura do mercado de trabalho no Piauí.

Fonte: Márcio Felipe Rocha | Jornalista | Portal AZ