Às margens do Rio Poti, artesãos transformam argila em esculturas, sustento e histórias; há 20 anos, o Polo Cerâmico do Poti Velho celebra a tradição e o talento de quem faz da arte um legado.
Há histórias que não precisam ser escritas no papel. Elas cabem na palma da mão, ganham forma entre os dedos e permanecem vivas muito depois que o tempo passa. No Poti Velho, bairro mais antigo de Teresina, a memória do Piauí também é contada pelo barro que vira santo, o rosto de uma escultura que parece sorrir e as mãos de quem aprendeu a transformar a terra em sustento, beleza e pertencimento.
Às margens do Rio Poti, o Polo Cerâmico do Poti Velho é um dos lugares em que a identidade piauiense pode ser tocada. Entre vasos, filtros, peças decorativas, esculturas sacras e figuras que retratam o cotidiano da comunidade, o artesanato ultrapassa a função de enfeitar casas. É uma expressão de história, trabalho e resistência, construída por gerações que encontraram na argila um jeito e viver e de contar ao mundo de onde vieram.
O espaço completa 20 anos de atividades em 2026, consolidando uma trajetória de valorização da cerâmica e dos profissionais que fazem dela seu ofício. Hoje, mais de 280 famílias estão diretamente ligadas à produção artesanal na região. Por trás de cada peça, existe uma cadeia de conhecimentos que não nasce pronta, mas sim aprende-se observando, experimentando, errando e tentando novamente, até que a matéria, antes sem forma, revele aquilo que o artista imaginou.
Muito antes de o polo ganhar a estrutura atual, a cerâmica já fazia parte da paisagem e da rotina do Poti Velho. A atividade se desenvolveu em uma comunidade marcada pela relação com o rio, pela pesca e pelo trabalho nas olarias.
Durante muito tempo, a produção acontecia em espaços improvisados, onde fornos, lenha e peças e clientes dividiam áreas próximas à avenida. A organização do polo representou uma mudança nas condições de trabalho e na maneira como o artesanato era apresentado a moradores e visitantes.
Para quem vive dessa arte, a transformação não se resume à construção de um espaço comercial. Ela também significa reconhecimento. Artesãos que acompanham essa história há décadas aprenderam a trabalhar com a preparação a massa e, aos poucos, passaram a modelar as próprias esculturas. Muitos não tinham mestres formais e descobriram a técnica na prática, desenvolvendo um talento que hoje compartilha com parentes e amigos da comunidade.
O aprendizado, nesses casos, não termina quando uma peça fica pronta. Ele continua cada vez que alguém observa o trabalho de um artesão, pergunta como determinada forma foi criada ou decide aprender o ofício. É assim que uma tradição permanece viva: não como uma fotografia imóvel do passado, mas como conhecimento que circula, se adapta e encontra novas mãos para continuar existindo.
O rosto que nasce da argila
No trabalho de escultura, cada detalhe exige paciência. O artesão que produz imagens religiosas costuma começar pela cabeça, etapa que considera a mais delicada. Um rosto pode levar aproximadamente um dia para ficar pronto, entre modelagens, ajustes e tentativas de alcançar a expressão desejada.
O desafio não está apenas em reproduzir uma figura, mas em dar personalidade a ela. Uma versão de um santo pode transmitir serenidade; o outro, alegria. As mãos, o manto, as roupas e os pequenos elementos do corpo completam a composição. Para chegar ao resultado, o artista observa a peça, acrescenta detalhes e, quando não fica satisfeito, pode desfazer o trabalho e recomeçar.
Há uma beleza particular nessa exigência. Em um mundo acostumado à velocidade da fabricação em série, o artesanato lembra que algumas coisas precisam de tempo para encontrar sua forma. A escultura não sai de uma máquina com todas as suas características definidas. Ela se constrói no diálogo entre a experiência de quem cria e a resistência de uma matéria que nem sempre obedece à primeira tentativa.
O resultado dessa diversidade está nas prateleiras do polo. Há objetos utilitários, artigos de decoração, esculturas religiosas e peças que carregam referências do cotidiano piauiense. Cada uma tem suas particularidades, porque o trabalho manual preserva marcas do gesto de quem a produziu. Comprar uma dessas obras é levar para casa algo que não se limita à aparência e é, também, uma maneira de manter o trabalho de um artista ligado à própria comunidade.
A história do artesanato no Poti Velho também é feita de mulheres que precisaram conquistar espaço em uma atividade tradicionalmente dominada pelos homens. Em 2003, um grupo começou a se organizar para participar da produção cerâmica e construir alternativas de renda. Eram mulheres ligadas à rotina das olarias, donas de casa e trabalhadoras que também ajudavam na pesca, mas não encontravam as mesmas oportunidades de atuação no ofício.
Raimundinha Teixeira, artesã e liderança comunitária, esteve entre as pessoas que ajudaram a transformar essa realidade. A iniciativa começou com 28 mulheres reunidas para participar de cursos de modelagem, bijuteria e cerâmica. Ao final da formação, oito permaneceram trabalhando. Com incentivo e organização coletiva, o grupo cresceu, passou pela associação e chegou à criação da Cooperativa de Artesanato do Poti Velho, a Cooperarte Poti.

Para Raimundinha, a mudança representou uma superação profissional e social. A cooperativa mostrou que as mulheres também poderiam trabalhar com a cerâmica, aprender técnicas, produzir peças e participar da renda familiar em uma atividade antes associada principalmente aos homens. Mais do que conquistar espaço, elas abriram caminho para que esposas e filhos de artesãos também pudessem se envolver na produção.
A trajetória da própria Raimundinha ajuda a compreender a dimensão dessa transformação. Mãe solo de dois filhos, ela trabalhava na olaria quando decidiu procurar uma alternativa de sustento. Encontrou no artesanato uma possibilidade de melhorar de vida e, com o tempo, descobriu também uma vocação para a liderança comunitária. A participação na organização dos trabalhadores ampliou seu papel, levando-a a contribuir para mudanças que ultrapassaram sua própria história.
“Sou apaixonada pelo que faço. Se tivesse que voltar atrás, faria tudo de novo”, conta. A fala resume uma trajetória construída não apenas pela habilidade individual, mas pela união de mulheres que encontraram força umas nas outras.
Um dos símbolos desse percurso é a coleção Mulheres do Poti, formada por esculturas que representam cinco personagens da comunidade: a mulher religiosa, a mulher do pescador, a mulher da olaria, a mulher ceramista e a mulher das continhas. Cada figura recupera uma parte da história local e dá visibilidade a experiências que nem sempre foram reconhecidas como parte do patrimônio cultural da cidade.
Ao transformar essas vivências em esculturas, as artesãs fazem mais do que representar personagens. Elas registram a própria história, com suas dificuldades, conquistas e mudanças. São mulheres que antes apareciam pouco nas narrativas sobre a produção local e que agora contam, com as próprias mãos, quem são e o que construíram.
Um patrimônio que continua em movimento
O Polo Cerâmico também acompanha as mudanças na forma de receber quem visita Teresina. Inaugurado em junho de 2024, o Parque Vila Poti ampliou as possibilidades de lazer e convivência na região, com espaços para alimentação, passeio, recreação infantil e contemplação da paisagem. O conjunto fortalece a ligação entre artesanato, gastronomia e turismo, convidando o visitante a permanecer no bairro para além do momento da compra.
Para quem chega ao polo, a experiência começa pela diversidade das peças, mas pode terminar na descoberta maior de que a cultura não está restrita aos museus ou às datas comemorativas. Ela vive no trabalho cotidiano, nos conhecimentos compartilhados e nas pessoas que continuam produzindo mesmo quando a tradição precisa disputar espaço com as dificuldades econômicas e as mudanças do mercado.

Apoiar o artesanato local, portanto, não é apenas adquirir uma lembrança de viagem. É contribuir para a continuidade de um ofício, para a renda de famílias e para a transmissão de conhecimentos que poderiam se perder se deixassem de encontrar espaço na vida contemporânea. Cada compra pode ajudar a manter essa cadeia, mas a valorização também depende de divulgação, oportunidades de comercialização e reconhecimento dos profissionais.
No Dia do Piauí, olhar para o Poti Velho é lembrar que a identidade de um povo não se constrói somente nos grandes acontecimentos. Ela também nasce nas tarefas repetidas todos os dias, nas mãos que trabalham antes de o sol esquentar, nas mulheres que abrem caminhos e nos artistas que descobrem uma nova forma dentro de um pedaço de barro.
A argila vem da terra, mas aquilo que ela passa a contar pertence às pessoas, aos piauienses. Em cada escultura, há um pouco do rio, da comunidade, das famílias e de um conhecimento que atravessa gerações sem permanecer igual. O Polo Cerâmico do Poti Velho completa duas décadas como espaço organizado, mas a história que abriga é muito mais antiga e segue sendo escrita a cada nova peça.
No fim, talvez o segredo do artesanato piauiense seja transformar algo tão simples quanto a terra em uma expressão de quem somos. Porque o barro pode secar, a peça pode mudar de lugar e o tempo pode apagar muitas lembranças. Mas, enquanto houver mãos dispostas a moldar e histórias dispostas a serem contadas, a memória do Poti Velho continuará encontrando formas de permanecer viva.
Fonte portal O dia


